Quem atendeu suas preces?

Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso Reino,

seja feita a vossa vontade

assim na terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai-nos as nossas ofensas

assim como nós perdoamos

a quem nos tem ofendido,

e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.

“Senhor por favor faça que aquela maldita vizinha quebre uma perna e me deixe em paz, não aguento ela mais aqui xeretando. Amém”.

Depois de rezar vou dormir cansada de mais um dia, estava bastante irritada com essa vizinha. Não aguentava mais ela todo dia na minha porta querendo saber da minha vida e fofocando sobre a vida dos outros. Minha avó sempre dizia que Deus escuta todas as nossas preces, espero que ele afaste essa mulher da minha casa.

Acordo cedo e vou saindo de casa para ir trabalhar e percebo que a vizinha não apareceu. Depois de um longo dia de serviço, quando cheguei em casa ela não apareceu também. A única coisa que pensei foi:

– Graças a Deus!

Rezei e fui tentar dormir, mas meu telefone começou a tocar. Atendo e infelizmente reconheço a voz imediatamente:

– Menina você não sabe o que aconteceu comigo! Eu simplesmente me levantei da cama, caí e quebrei a perna!

Fico do outro lado da linha pensando se isso aconteceu porque eu rezei e perguntei:

– Como você está?

A vizinha responde animada:

– Estou bem! Não se preocupe! Não vou poder ficar indo aí, mas ainda bem que existe telefone …

Ela começa a gargalhar e termina dizendo:

– Vou te ligar todos os dias! Boa Noite!

– ……. Boa Noite! – disse depois de respirar bem fundo.

Desligo o telefone irritada, achei que ia ficar livre e ela arrumou mais um motivo para ficar perto de mim. Rezei novamente pedindo a Deus para que ela não me ligasse, que ficasse muda ao invés de fazer isso, eu não me importava como, só queria ficar em paz.

Acordo no outro dia assustada com barulhos de carro de polícia e ambulância, saio de casa para ver o que estava acontecendo e estavam todos parados na porta da casa da vizinha, me aproximo e pergunto para o primeiro policial:

– O que está acontecendo?

– Dois ladrões entraram na casa, aproveitaram que a dona da casa estava com a perna quebrada, amarram ela e cortaram sua língua para ela não pedir socorro!

Fico assustada e pergunto novamente sem acreditar no que ele estava dizendo:

– Cortaram sua língua? Ela está muda?

– Cortaram feio, está sangrando muito e ela não consegue falar! Vocês eram próximas? Ela acabou de sair para o hospital!

– Não – respondo ainda não querendo ligação nenhuma com a vizinha.

Volto para casa depressa, pensando que a culpa era minha. Eu rezei para isso tudo acontecer, mas não sabia que realmente aconteceria. Com peso na consciência comecei a rezar pedindo para ela ficar bem, se o mal acontece, o bem deve acontecer também:

– Por favor Deus retira todo o mal que eu pedi! Eu só queria me livrar dela, não queria nada de mal, quero que ela fique bem!

Escutei um sussurro vindo de algum lugar da casa, interrompeu a minha reza dizendo:

– Agora é tarde!

Saio correndo pela casa procurando a voz:

– QUEM ESTÁ AÍ?

A voz começa a gargalhar muito alto.

– QUEM É VOCÊ?

– Ora, sou quem atendeu às suas preces.

– MAS, VOCÊ NÃO É DEUS, É?

– Não. Mas quem manda ficar pedindo essas coisas em voz alta? Alguma outra pessoa poderia escutar.

– E COMO VOCÊ CONSEGUE FAZER ISSO? QUEM É VOCÊ? A coisa voltou a gargalhar e única coisa que respondeu foi:

– Sabe aquele ditado, “Tudo que vai volta”?

 Quando a voz terminou de sussurrar isso, vejo que alguém tinha entrado na casa, eram dois ladrões. Subi as escadas correndo porque eles já tinham tomado conta do primeiro andar. Tentei ver do topo da escada se tinham saído e escorreguei, rolei escada abaixo. Quebrei a perna, não tinha mais nenhum movimento nela. Os ladrões estava me esperando lá embaixo com facas nas mãos. Um deles me puxou pelo cabelo enquanto o outro abriu a minha boca e cortou a minha língua. Senti uma dor insuportável e vejo a minha língua caindo no chão e desmaio.

Me deixaram para morrer, mas acordei um tempo depois. Não conseguia me movimentar e muito menos gritar, acho que passei alguns dias assim até que alguém lembrou de mim. A vizinha abriu a porta e gritou pelo meu nome, eu estava no chão, sem reação. Ela já estava bem e conseguindo falar, nunca pensei que ficaria feliz em ouvir essa voz irritante.


Ilustração: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

Para acompanhar o nosso trabalho no Instagram:

@nathaliaesantos_

@rodarthb

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s