A Descoberta

Minha mãe já estava há dias sem dormir e comer por causa do meu avô, ele estava desaparecido há mais de seis meses. A polícia estava desistindo de encontrá-lo, não tinha mais onde procurar, ele sumiu sem deixar rastros e ninguém conseguia identificar a causa do seu desaparecimento:

– Mãe, se levanta!! Você tem que comer alguma coisa, não pode mais viver assim sofrendo pelo meu avô, ele vai voltar!

Falei isso com o coração doendo pois eu também sentia muita falta dele e das suas pesquisas malucas. Ele era um grande cientista e me ensinava muitas coisas, sempre compartilhava comigo suas grandes descobertas:

– Desculpa filho, mas acho que seu avô não volta mais! – Ela disse isso aos prantos e fico com muita raiva.

– COMO VOCÊ PERDE AS ESPERANÇAS ASSIM MÃE? ELE VAI VOLTAR SIM! ELE SEMPRE VOLTA!

Saio correndo e vou direto para o quarto do meu avô, fecho a porta com raiva, deito-me em sua cama e fico ali chorando, até que encontro um papel enrolado embaixo do travesseiro:

“Os nove círculos”

Desenrolei o papel e era um mapa que levava para algum lugar chamado “Planeta dentro de Outro”. Era um mapa diferente de todos que ele havia me mostrado antes, o destino ficava no centro de 9 círculos e cada um desses círculos ficava em um nível abaixo do anterior. Uma chama de esperança de encontrar meu avô cresceu dentro de mim:

– Eu sabia que você não estava morto! Com certeza é alguma descoberta científica que vai mudar o mundo!

Decido então esconder esse mapa e fugir para encontrar meu avô sozinho, assim ninguém ficaria sabendo da sua nova descoberta. Vou no meu quarto, pego minha mochila, coloco roupas e alguns biscoitos dentro dela, passo por minha mãe bem devagarinho, para ela não escutar que estava saindo e vejo que ela está dormindo. Sussurro bem baixinho:

– Eu volto mãe, te amo!

Já saio de casa seguindo o mapa e percebo que ele estava me levando para os fundos da nossa casa, mostrava uma entrada para uma passagem subterrânea. Chegando lá comecei a descer uma escada que parecia infinita, pensei que ela nunca iria acabar, mas depois de quase uma hora descendo finalmente ela acabou. No mapa, este local era identificado como o primeiro círculo.

Fico parado e assustado por ver pessoas ali, me aproximei e percebi que não eram pessoas normais, elas eram translúcidas, eu parei e consegui ver através delas:

– SÃO FANTASMAS!

Acho que disse isso muito alto e todos se viraram para mim. Um senhor se aproximou e disse:

– Aqui é o Limbo! O lugar dos pagãos e dos não batizados! Se você não for um de nós vá para o próximo círculo!

Os fantasmas começaram a me cercar, saio correndo seguindo o mapa tentando chegar ao segundo círculo. Encontrei uma porta e entrei, devo ter demorado umas duas horas para chegar até ali. Parecia um tribunal, estava cheio de fantasmas e havia um senhor escutando as confissões dos fantasmas. Ele me avistou e disse:

– Eu sou Minos! Juiz deste lugar! Aqui é o Vale dos Ventos! O lugar dos pecadores da luxúria! Se você não for um de nós vá para o próximo círculo!

Passo pelos fantasmas bem sem graça por ter atrapalhado o julgamento e volto a seguir o mapa para encontrar o terceiro círculo. Esse foi mais rápido para chegar, em uns vinte minutos já estava lá. Me deparei com um cachorro enorme de três cabeças, atolando fantasmas em uma lama e dizendo:

– Os gulosos que se afoguem! Aqui é o Lago da Lama, se você não for um de nós vá para o próximo círculo!

Tento seguir o meu caminho sem afundar na lama e nem ser visto pelo cachorro, mas escorreguei e rolei até chegar em um outro lugar, acho que cheguei no quarto círculo. Os fantasmas estavam discutindo entre si, olharam para mim com nojo e disseram:

– Aqui são as Colinas de Rocha! O lugar dos Pródigos e Avarentos! Se você não for um de nós vá para o próximo círculo!

Os fantasmas começaram a me puxar e empurrar, fui sendo arrastado pela multidão até cair na água. Percebo que na verdade era um rio de sangue e quando olho no mapa, já estou no quinto círculo. Uma senhora fantasma toda coberta de sangue se aproxima e puxa meu braço, me arrastando para fora do rio gritando:

– AQUI É O RIO ESTIGE! LUGAR DOS ACUSADOS DE IRA! SE VOCE NÃO FOR UM DE NÓS VÁ PARA O PROXIMO CÍRCULO!

Fico andando por horas até chegar no sexto círculo, já não estava aguentando mais e tirei um biscoito para comer. Sinto cheiro de carne podre queimada e fico enjoado. O sexto círculo era um cemitério, estavam sepultando os fantasmas em túmulos abertos, em chamas.

Saí correndo apavorado e de repente vejo uma placa indicando três caminhos. Eram três vales para escolher, Vale do Rio Flegetante, Vale da Floresta dos Suicidas e Vale do deserto Abominável. Procuro no mapa qual caminho a seguir e vejo que devia continuar sem entrar em nenhum desses vales, fico aliviado por isso.

Caminho por mais algum tempo e vejo novamente fantasmas sendo castigados. O mapa mostrava que o oitavo círculo eram “os dez fossos” que estavam na minha frente, mas também não precisaria entrar neste.

Já não aguentava mais esse lugar, era muito horror e comecei me questionar o que meu avô achou aqui. Com esperança de que faltava pouco para encontrar o meu avô continuei caminhando até que avistei um enorme homem com chifres de bode, asas de morcego e três cabeças:

– Como você chegou até aqui menino? – disse a primeira cabeça.

– Quantos anos você tem? – disse a segunda cabeça.

– Eu sou Lucífer, quem é você? – disse a terceira cabeça.

Respondo com medo:

– Estou procurando o meu avô, ele está desaparecido e me deixou esse mapa, meu nome é Igor e eu tenho 13 anos!

– Prazer Igor, meu nome é Judas! – Disse a segunda cabeça

– Prazer! O meu é Brutus – Disse a primeira cabeça

A Terceira cabeça estava analisando o mapa e o menino:

– Você tem certeza de que quer achar o seu avô?

Respondo muito feliz:

– É tudo o que eu mais quero nesse mundo!

– Então é só você seguir em frente rapaz! Seu avo é um gênio! Ele descobriu o centro da terra! – Disse a terceira cabeça mostrando o caminho.

Saio correndo sem pensar em me despedir ou agradecer as três cabeças, só consigo pensar em encontrar o meu avô. Uma porta se abre para mim com uma luz que quase me cegou, tampo meus olhos e quando me acostumei com a claridade estava em outro planeta, era realmente um planeta dentro de outro, tudo era diferente.

Parecia que eu estava dentro de uma grande bola de metal e estava um calor infernal, não havia nada nesse lugar além de metal e meu avô. Quando ele me viu veio ao meu encontro me abraçar e disse chorando:

– O que você está fazendo aqui Igor? Por que você veio até aqui?

Comecei a chorar:

– Eu vim ajudar você! Eu encontrei o mapa! Segui o que você pediu! Sabia que você tinha feito alguma descoberta genial! Vamos sair daqui e contar para o mundo meu avô! Você descobriu o centro da terra! – Disse isso puxando meu avô para gente poder ir embora.

– Se fosse fácil assim, meu neto, eu já teria ido embora! Eu pensei que você ia entregar o mapa para sua mãe e ela ia entender o que eu estava falando, era por isso que estávamos ali naquela casa, eu devia ter contado tudo direito para você, nunca ia imaginar que você ia vir atrás de mim! Acabei te fazendo ficar preso aqui comigo.

Abraço o meu avô desesperado dizendo:

– Quem sabe um dia alguém descobre esse lugar?

Ele responde preocupado:

– Quem sabe?


Ilustrador: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

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