Um conto de marionetes

– Lucas não é assim que se fala, você não deve brincar desse jeito, não deve se vestir desse jeito, você é estranho, porque você não é igual a todo mundo?

Essas foram as conversas que o avô de Lucas escutou do seu neto brincando com o vizinho o dia todo. O velhinho sentou e ficou observando como o seu neto deixava de ser quem ele era com esse garoto, fazia tudo que ele queria, conseguia controlar Lucas em todas as suas atitudes.

Assim que o vizinho foi embora o avô chamou o neto para conversar:

– Lucas meu querido neto, venha tomar um café com o seu avô, está muito frio lá fora, venha se aquecer!

Lucas amava seu avô, adorava sentar com ele para tomar um café e jogar conversa fora:

– Temos bolo vô? Vou adorar tomar um café com bolo, está mesmo muito frio lá fora.

– É claro que temos bolo, e de milho ainda, o seu preferido!

– Eu amo muito bolo de milho! O Jorginho fala que sou esquisito, meu gosto é esquisito, as vezes acho que ele tem razão!

O velhinho percebe que o neto está mesmo chateado e resolve concertar essa situação:

– Não liga para o Jorginho! Vamos esquecer isso! Sabe o que combina com café, bolo e frio?

O menino pergunta empolgado:

– O que vô?

– UMA HISTÓRIA!!!! Vou contar para você uma historinha sobre uma marionete!

O menino chega mais perto para escutar e o avô começa a contar a história:

“Era uma vez uma marionete que queria ser gente. Ela sabia que para ser gente ela tinha que ser livre, mas não sabia como conseguir isso, pois era uma marionete e tinha que fazer tudo que o seu dono queria. O seu dono comandava todas as suas ações, como falar, o jeito de andar, vestir, calçar. A marionete não tinha vontades, desejos ou personalidade, tudo era feito pelo seu dono.

Até que um dia ela recebeu uma visita de uma fada dizendo que seu tempo estava acabando, se ela não conseguisse ser livre até meia noite, seria uma marionete para sempre.

A marionete queria muito ser gente, não queria viver assim para sempre, como um boneco de madeira e começou a reparar que além de ser de madeira, ela tinha cordas amarradas em todas as partes do seu corpo. Anos vivendo como marionete e tinha esquecido disso. Ela resolveu cortar as suas cordas e fugir do seu dono para ser livre, mas quando as cortou, uma magia envolveu todo o seu corpo, transformando a marionete em um menino.

Foi assim que a marionete percebeu que para ser livre ela tinha que cortar as cordas, que fazia o seu dono comandar suas ações, agora ela era livre para fazer as coisas do jeito que quiser. E virou um menino, suas ações agora dependiam só dele, mas as marcas das cordas amarradas em seu corpo nunca desapareceriam, para ele se lembrar de nunca mais querer ser uma marionete. ”

O avô terminou a história e disse sorrindo:

– Espero que tenha gostado da história, como gostou desse bolo.

O menino responde comendo seu quinto pedaço:

-Eu amei vô! Mas agora acho que vou sair para brincar mais um pouco.

O menino sai correndo para fora da casa e o velhinho escuta a conversa dele e o vizinho novamente:

– EI JORGINHO! EU SÓ VIM AQUI PARA DIZER QUE ESTOU CORTANDO AS MINHAS CORDAS OK? EU NÃO VOU SER UMA MARIONETE! EU VOU FAZER O QUE EU QUISER!

Ele sorri satisfeito com a atitude do seu neto, levanta as mangas da sua blusa e olha para suas marcas. Refletindo, o velho começa a gargalhar e as palavras fogem de sua boca:

-HAHAHAHA! Como é bom ser humano!


Ilustrador: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

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