O objeto que aprisiona o mundo

Ana estava sentada na calçada em frente a sua casa muito ansiosa esperando seu pai chegar, ele era um arqueólogo muito famoso e vivia viajando. Dessa vez ele já tinha passado mais de um ano sem ver sua família. Ana mandava cartas para ele todo o mês, a última que recebeu foi do seu pai falando que estava trazendo um presente especial para o seu aniversário de 14 anos.

Depois de horas esperando, o pai de Ana chegou trazendo um presente enorme para ela e quando desembrulhou era um espelho. O espelho parecia ser bem antigo, a borda era toda trabalhada com folhas de ouro e Ana conseguia se ver todinha nele.

A menina ficou ainda mais encantada quando o seu pai contou que o espelho deveria pertencer a uma princesa ou rainha, e foi achado em um castelo perto de onde eles estavam explorando. Ele achou um desperdício levá-lo para o museu já que ele era um presente perfeito para a sua menina que estava crescendo cada dia mais vaidosa.

O pai ajudou Ana a colocar seu presente em seu quarto e deste dia em diante, ela ficava horas na frente, se embelezando, dançando, cantando, desfilando, até que um dia aconteceu uma coisa estranha. Ela escutou uma voz saindo do espelho:

– Menina tola, chega mais perto e veja como é a sua aparência!

Ana se aproximou mais do espelho e quando se viu nele, ela não gostava mais do seu cabelo, começou a achar ele muito feio, sem graça. Começou a ficar com vergonha por isso, até que um dia resolveu cortar. Quando chegou na frente do espelho achando que tinha resolvido essa situação, ela escutou a voz novamente:

– Menina tola, chega mais perto e veja como é a sua aparência!

Dessa vez ela começou a detestar seu rosto, ficou deprimida, não saia mais de casa sem maquiagem, mudava totalmente o seu rosto e ficava irreconhecível. Mesmo assim ainda continuou escutando uma voz do espelho:

– Menina tola, chega mais perto e veja como é a sua aparência!

A menina mais uma vez dá ouvidos para essa voz, e acha mais um defeito, e agora esse defeito era o seu corpo. Ana passou a detestá-lo mais que seu cabelo, mais que seu rosto.  Tinha tanta vergonha que passou a andar de roupas largas e ficava dias sem comer. Começou a ficar obcecada em ser a mais bonita, ficava se comparando com as amigas, artistas, modelos de revista e começou a perguntar para o espelho:

– Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita que eu?

E o espelho respondia:

– É claro que existe, menina tola, chega mais perto e veja como é sua aparência!

E quanto mais o espelho respondia dessa forma, mais Ana tentava ser perfeita. Nada que ela fazia agradava o espelho, ela se sentia cada vez pior e a voz falando sobre sua aparência nunca parava, até que um dia ela se cansou. Se cansou daquilo que ela estava se tornando, se cansou da voz, se cansou do espelho e resolveu confrontá-lo:

 – Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita que eu?

O espelho respondeu:

– É claro que existe, menina tola, chega mais perto e veja como é sua aparência!

A menina revoltada com o espelho responde:

– QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA FALAR SOBRE A MINHA APARÊNCIA? VOCÊ É SÓ UM ESPELHO!

– Eu sou o objeto que aprisiona o mundo! E você virou escrava da perfeição assim como minha rainha e muitas outras pessoas.

Dizendo isso o espelho mostrou para Ana pessoas obcecadas, fazendo o impossível para serem perfeitos, criando padrões que não existem. Várias pessoas, homens, mulheres, crianças, até um gatinho. Todos eles eram perfeitos, mas definharam. Ele mostrou também a sua rainha, que acabou envenenando uma moça por ela ser mais bonita.

– Agora você entende quem eu sou? Durante séculos eu aprisiono o que todos tem de mais valioso. Eu tomei vários sonhos, vários desejos, tudo que eles têm agora sou EU!

Ana ficou tão assustada que fechou os olhos, ela não queria ser como aquelas pessoas, principalmente como a rainha. Quando finalmente teve coragem para abrir os olhos ela se viu no espelho. Ela entendeu que nunca houve nada de errado com ela, se levantou, pegou a cadeira do seu quarto e quebrou o espelho em mil pedaços para que não sobrasse parte alguma, para ele aprisionar mais alguém.

Depois desse dia Ana decidiu nunca mais confiar em nenhum espelho e principalmente em nenhuma voz que venha deles.


Ilustração: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

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