OS Esquecidos

Estou preso aqui há mais de 20 anos e nunca me deparei com essa prisão tão quieta. Não vejo mais os guardas, carcereiros, faxineiros ou visitantes. O pessoal da limpeza só pode ter sido demitido pois o cheiro das celas já está insuportável. Não abrem mais as celas para levar a gente para comer, não consigo sentir nem o cheiro da comida, acho que nem os cozinheiros estão mais aqui.

Parece que fomos abandonados e o motivo ninguém sabe. Os dias foram se passando, a fome estava apertando. Escutava meu colega de cela gritando por socorro, tentando quebrar a porta para sair, os outros presos fazendo a mesma coisa e nada de aparecer alguém para ajudar.

Até que um dia, na madrugada, escutei um barulho. Acordei com milhares de presos correndo livres pelos corredores, meu amigo de cela, Wilson, parado me esperando:

– Acorda Michael!! Vamos lá ver o que está acontecendo?

Levanto apressado e o único lugar que eu penso em ir é direto para cozinha. Chegando lá vejo os presos revoltados, não tinha comida! Levaram tudo embora. Eu fico horrorizado e começo a me sentir mal, estava muito sonolento por causa da falta de comida e acabo me encostando em um canto da cozinha, quando Wilson se aproxima e diz:

– Vamos sair daqui! Isso aqui vai virar uma bagunça, eles estão com muita raiva, vai acabar um descontando no outro.

Concordo com Wilson e me levanto para acompanhá-lo. Começo a seguir ele e percebo que estamos indo na direção oposta da saída, acabamos parando na sala de segurança.

-Vamos procurar alguma coisa aqui Michael! Quem sabe a gente consegue saber o que está acontecendo?

Começamos a revirar a sala e depois de muito tempo achamos vários jornais com notícias dizendo que um vírus estava se espalhando e matando pessoas no mundo, várias cidades foram abandonadas e o pior de tudo, o governo iria lançar um decreto para que as prisões fossem deixadas de lado, porque não tinha recursos para cuidar ou transportar os presos caso acontecesse alguma coisa.

– ENTÃO FOMOS DEIXADOS PARA MORRER!

Falo isso para ele, gastando todas as forças que eu ainda tinha, e começo a ficar sonolento outra vez. Acabo apagando ali mesmo.

Quando eu acordo, ainda estou na sala de segurança, e vejo que Wilson está assustado e coberto de sangue:

– O que está acontecendo? Quanto tempo eu dormi?

– Você dormiu por uns dias Michael, mas não sei mais a contagem dos dias, a prisão está uma loucura, eu estou ficando louco, eu precisava comer, Michael! Uma hora você vai ter que comer também!

Eu tento responder, mas apago novamente.

Acordo dessa vez com Wilson me chamando, vejo que ele está coberto de sangue até a cabeça, olho para o chão e só tem sangue. Ele enfia um pedaço de carne na minha boca;

– Você precisa comer Michael! Vai acabar morrendo!

Começo a comer aquela carne sem nem ao menos saber de onde veio, quando eu já estava bem cheio começo a apagar novamente, meu corpo já não estava mais acostumado com tanta comida e a última coisa que eu me lembro é ter visto era algo no chão que parecia muito ser um braço humano.

Dessa vez eu acordo sozinho, mas me sentindo melhor, e percebo que estou todo coberto de sangue, olho para o lado e vejo uma pilha de pedaços de corpos. Começo a tremer, e uma chuva de lembranças surge em minha cabeça. Wilson matando pessoas, eu atacando pessoas, dilacerando pessoas para comer. Começo a ficar desesperado, será que eu nunca apaguei? Sempre estive aqui? Há quanto tempo já estou fazendo isso?

Saio correndo desesperado da sala de segurança e acabo encontrando um outro preso no corredor, que me agarra e me prende pelo pescoço contra a parede. Vejo que ele estava tão desesperado quanto eu;

– O que está acontecendo? – Pergunto com a voz rouca, estava com dificuldade para falar.

Ele responde:

– Olha se não é o famoso Michael, “o esquartejador”. Agora todos somos iguais aqui, um ano sem comida, viramos animais!

– Onde está o meu colega de cela?

– Colega? – o preso começa a gargalhar. – Você está há 20 anos na solitária! Será que o grande Michael tem um amiguinho imaginário?

Fico paralisado. Me recordo de tudo, desde o dia que fui preso. Até que os 20 anos não tinham sido tão ruins com a companhia do Wilson, mas era tudo na minha cabeça. O preso interrompe meu devaneio, a sua expressão agora aterrorizante, parecia um predador:

– A única coisa que eu quero é sobreviver e só tem um jeito, você sabe como? Comendo para não morrer de fome!

Apaguei novamente, dessa vez por falta de ar. Acordei com uma dor insuportável na minha coxa esquerda. Percebi que ele estava me comendo aos poucos, mas me mantendo vivo para a carne durar mais tempo. Os próximos dias seriam mais longos para mim do que os últimos 20 anos.


Ilustrador: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

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