O Fio de Ariadne

– Já chegamos mãe?

– Falta só alguns minutos! Disse minha mãe já estressada comigo por tanto perguntar.

Ela sabia que eu detestava viagens longas, não era uma criança muito paciente, ainda mais sabendo que estamos de mudança. Não queria abandonar minha cidade e minha escola, mas meus pais se separaram, então minha mãe resolveu começar a vida de novo em uma casa velha, isolada, que recebeu de herança da “vó bisa”.

– Chegamos filha! – Minha mãe falou isso com muita empolgação enquanto estacionava o carro.

Não era uma casa velha como eu tinha imaginado, era uma mansão. Mas bem velha, com um jardim enorme, cheio de estátuas antigas de pessoas que não conheço, uma fonte no centro e um labirinto ao lado. Era tudo muito estranho, mas eu gostei, só não queria deixar minha mãe saber disso.

– Isso aqui parece cena de filme de terror- disse só para irritar a minha mãe.

– Como você sabe o que é cena de filme de terror? Ariel, eu já mandei você parar de assistir essas coisas, você só tem oito anos!

Pego minha mochila, saio correndo para dentro da casa deixando minha mãe conversando sozinha. Quando eu entrei fiquei maravilhada, era tudo muito velho, mas muito bonito, as paredes desenhadas com letras diferentes e mais estátuas. Parecia a igreja lá da minha cidade, com os vários altares pelo caminho, mas não conhecia nenhum desses Santos.

Minha mãe entra afobada com as mãos cheias de caixas.

– Ariel! Estou chamando para ajudar, não escutou? Temos muitas caixas para tirar do carro, vai lá buscar as menores enquanto eu vou organizando essas aqui. O jardineiro da sua bisa está aqui para ajudar.

– Já vou mãe!

Acabou toda minha empolgação com esse lugar quando eu lembrei das mudanças. Vou até o carro pegar as caixas e vejo um homem parado na porta do labirinto, enrolado em um pano branco. Ele sorriu e fez um gesto me chamando, acho que deve ser o jardineiro e vou até ele.

– Olá! Você deve ser o jardineiro, acabamos de nos mudar, pode ajudar a gente?

Ele sorri e responde:

– Não criança, eu perdi uma coisa ali dentro e não consigo buscar

Ele aponta para o labirinto. Pergunto:

-Quem é você então?

-Criança eu preciso muito da sua ajuda, perdi a única coisa que eu tenho de lembrança da mulher que eu amo, você pode me ajudar?

– O que você perdeu? E porque não vai lá buscar?

Com a voz bem calma, ele se ajoelha para ficar do meu tamanho e responde:

– Eu perdi um fio, esse fio é a única coisa que pode trazer qualquer pessoa de volta desse labirinto, foi um presente da minha amada. Mas nesse labirinto existe um monstro e se eu entrar lá ele vai me reconhecer e vai me atacar. Se você for, ele não vai fazer nada.

– E por que eu faria isso?

– Vai ser uma aventura, você já entrou em um labirinto antes?

– Mas e o monstro, como tem certeza de que ele não vai me atacar?

-Pode confiar em mim, eu já irritei esse monstro demais de tanto entrar nesse labirinto, foi assim que perdi o fio da última vez.

– E por que você fica fazendo isso, não tem mais nada pra fazer?

– Quando você vive muitos anos, acaba fazendo besteiras. Vai me ajudar?

Não entendi o que ele quis dizer com isso e respondo:

– Mas… O que eu vou ganhar com isso?

– Pode ficar com o fio para você.

Ele não parecia mais tão calmo, mas continuava ajoelhado fitando o meu rosto.

– Então eu vou!

Respondo sorrindo, olhando para o seu rosto que parece ser bem familiar e caminho para o labirinto.

Lá dentro percebo que é bem diferente do que eu imaginava, por fora são muros de folhas e por dentro na verdade são de pedras, parecia que eu estava em outro lugar. Caminhei durante muito tempo e nada de achar esse fio, até que me deparei com o monstro dormindo no chão.

Fiquei horrorizada, ele era muito feio, tinha chifres e sua cabeça parecia com a de um touro, seu corpo parecia de um homem normal, e tinha rabo de touro também!!!! E tinha uma bola de lã na frente dele

– Será que isso é o tal fio? Não sei se valeu a pena ter entrado aqui só por isso.

Vou andando bem devagar para não acordar o monstro, acabo tropeçando em uma pedra e caindo. O monstro se levantou, parecia estar muito bravo e pronto para me atacar, mas quando viu quem eu sou, ele ficou parado me observando. A bola de lã começa rolar e eu saio correndo atrás dela. O monstro parecia desapontado e se deitou novamente. 

– Acho que eu não era o que ele estava esperando. Será que ele não come crianças?

A bola deixava um rastro bem fácil de seguir, parece que queria ser seguida. E de repente eu já estava na saída do labirinto e homem estava me esperando. O fio tinha acabado exatamente onde o labirinto acabava

-Esse só pode ser o fio!!

Ele sorri para mim, vou me aproximando e reparo que ele parece muito com uma das estatuas da casa. Vou enrolando o fio e falo:

– Está aqui seu fio, vai mesmo dar para mim? Não era a única coisa que tinha da sua amada?

Ele se ajoelha novamente e disse:

– Era sim, mas para você é mais importante, Ariel, descendente de Ariadne.

O homem se levanta e sai caminhando. Fico assustada por ele saber meu nome, e o que ele quis dizer com isso? Grito:

– PERAI! COMO VOCE SABE MEU NOME? QUEM É VOCE?

Ele grita respondendo:

– EU SOU TESEU!

E desapareceu bem na minha frente.

Fico assustada, não por ele desaparecer, e sim por perceber que eu conheço esse homem e esse nome de algum lugar, mas onde será que eu já vi esse moço?


Ilustração: Brendom Rodarte

Escritora: Nathália Santos

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