A Vida após a Morte

Eu me lembro de quando eu e meus pais saímos de carro para passear, de como era as idas para escola, encontrar os amigos, ir a bares, restaurantes, tomar uma casquinha de sorvete, sentar em uma praça e ver as pessoas passarem. Lojas abertas, shoppings movimentados, sair para dançar, ou simplesmente sentir o toque de alguém como um abraço ou beijo, sentir o cheiro e poder chegar bem perto sem medo.

Infelizmente o medo é tudo que temos agora. Medo das pessoas que amamos, das idas para escola, encontrar os amigos, bares, restaurantes, até mesmo da casquinha de sorvete, sentar na praça, lojas abertas, shoppings movimentados, sair para dançar ou sair para fazer qualquer outra coisa. Quando você sai poderá nunca mais voltar.

Lembro de quando se saía a noite, víamos as casas acesas com seus moradores, às vezes dava para escutar uma Televisão ligada, música, risadas e até mesmo brigas. Agora estão abandonadas e as pessoas estão ficando extintas. Não sei como isso aconteceu mas as pessoas estão morrendo, apodrecendo vivas e voltando para nos matar.

Isso aconteceu com minha mãe, não sabia o que era mas foi em estágios. Primeiro chegou a febre, junto com o cansaço e tosse muito seca. Ela mal conseguia se manter de pé, passava dias com o corpo mais quente que uma brasa em chamas. Tossia tanto sangue que parecia um fumante com câncer terminal. Eu e meu pai achávamos que isso não poderia piorar, depois de uns dias isso ficou ainda pior.

Minha mãe começou a passar mais tempo desacordada, perdeu a fala e os movimentos do corpo. Não sabíamos o que fazer, como cuidar, só ficamos dentro daquela casa esperando a hora que isso também aconteceria com a gente.

Um dia acordei com um cheiro muito ruim pela casa. Parecia o cheiro das maças em decomposição que esquecia de comer. Mas não eram as maças, era minha mãe ainda viva. Ela estava apodrecendo viva. Eu queria muito gritar, pedir ajuda mas para quem? Não tinha mais nada que pudéssemos fazer, de pessoas vivas eu só tinha o meu pai, não tinha mais ninguém. As pessoas que passavam nas ruas não eram mais pessoas.

Passamos dias vigiando ela esperando o pior acontecer. Meu pai sempre saía de casa para encontrar remédios e comidas para gente, então ele já sabia como lidar com essas pessoas. E infelizmente esse dia acabou chegando em nossa casa. Minha mãe parou de respirar.

Não demorou cinco segundos e ela já estava acordada novamente, meu pai correu para amarra-la sobre a cama antes que ela tivesse alguma reação e já estava pronto para atirar. Até minha mãe fixar seu olhar em mim. Meu pai jurou que ela me reconheceu e ficou repetindo:

– É ela minha filha! Ainda é sua mãe.

Eu não sabia o que pensar, se era realmente minha mãe ou se meu pai estava ficando louco. Não sabia como realmente era as pessoas fora dessa casa. Meu pai segurou forte a minha mão e disse:

– Vamos ser uma família novamente?

Entendi rapidamente o que ele quis dizer. Ele largou a minha mão, se aproximou da cama da minha mãe e a desamarrou.

Fechei a porta do quarto.

Cheiro de carne podre é o cheiro da minha casa, é o cheiro da minha família agora! Amo carne humana, não sei como parar.

Nathália Santos

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